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A dor que cura e enobrece

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É um privilégio ser psicoterapeuta! Nos deparamos com histórias humanas de muitos teores e cores. Separações bem vindas, outra nem tanto. Crescimento, saídas, soluções, convivência pacífica com problemas e dor. Dores de todos os quilates. E nós, desse lado da cadeira, também aprendemos que dor cura, que dá sentido, que enobrece, torna humilde, retempera.
Mas dia desses, ouvi uma história, longe do setting terapêutico.
Uma história de dor! E quero aqui dividir, porque não entendi.
É a história da Berê!


Berê nem nasceu; foi cuspida!
Não foi aguardada, amada, bem recebida.
Não teve enxovalzinho, nem padrinho, nem festinha...
Carinho? rs Tá de brincadeira?
Pois então, nasceu essa menina. Triste sorte ser menina.
Pais alcólatras; ambos!
Berê apanhou!
Apanhou porque era menina e porque não era.
Apanhou porque fazia e porque deixava de fazer.
Apanhava quando as notas eram baixas, mas quando eram altas também.
Apanhava se chorava, ou se ria, ou se se encolhia num canto.
Apanhava!
Apanhava!
Era sua obrigação buscar cachaça no boteco para os pais. E fiado.
Pequenina ainda. Pequenina mesmo; 4 aninhos. Isso é o que ela lembra.


Certa vez, disse um não quando a mãe lhe obrigou a ir ao boteco do vilarejo afastado de uma cidadezinha afastada de um Nordeste afastado.
E disse não, porque não gostava do que os homens que frequentavam o boteco lhe diziam e faziam.
E correu.
Maldita a hora!
O pai vinha chegando, e ouviu os gritos da mãe;
– “Pega essa cachorra que disse que não vai buscar açúcar pra nóis!”
Era assim que chamavam a cachaça, e era assim que chamavam a menina.
E o pai pegou a cachorra. E o pai estava com a “cachorra” naquele dia.
E bateu!
Bateu!
Bateu muito! Mais que sempre!
E Berê fugiu.
Foi parar na casa de uma prima.
Casa?
Prostíbulo.
Mas ela veio a saber o nome bem depois. O nome, porque a função ela descobriu logo.
Escondeu-se debaixo da cama da prima o quanto deu, mas não deu sempre.


Esse pedaço vou pular.


Aos 12 anos cansou.
Fugiu de novo.
Foi pega pela polícia que em vista do seu estado a levou ao hospital.
Seu anus estava praticamente pra fora, e precisava ser operada.
Levada ao hospital, o ambiente a assustou e Com medo fugiu de novo.
Lembra-se de ficar horas no meio do mato em elocubrações.
Sabia que se alguém viesse pra cima dela de novo iria matar, mas ao mesmo tempo pensava;
"Eu não quero matar. Não sou disso! Vou viver no mato! Se os macacos vivem, eu vou conseguir também".
Ela crê que tenha ficado ali umas 6 horas.


Morou na favela, morou no mato, morou no inferno.
Foi casada, descasada, casou-se novamente.
Só estrupícios. Só abusadores, bêbados, cafajestes, gigolôs...


Vou pular de novo.


Sobreviveu.

Hoje costura pra fora, porque por dentro está toda remendada.
É mãe carinhosa, não bebe, não fuma, não trafica ( embora pudesse ter sido doutorada na prática).
Trabalha!
Muito!
E me contou sua história.
E essa dor eu não entendo.
É muita dor.
E Berê é doce. Diz que sempre foi.
Que quando assiste os programas do Animal Planet, sente que é uma girafa, que quando o leão resolve atacar, não há escapatória.


Muita dor!
Não entendo.